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Música do século XV na idade das electrónicas

por NUNO GALOPIM  

Música do século XV na idade das electrónicas

Ambrose Field e John Potter actuam amanhã no Teatro Maria Matos, em Lisboa

Há cerca de um ano, um disco propunha um encontro invulgar, juntando a voz de John Potter, em peças de Guillaume Dufay (um compositor com obra assinada no século XV), a novas composições de música electrónica (ver caixa) de Ambrose Field. Uma ponte entre os séculos XV e XXI, Being Dufay assinalou o início de um relacionamento criativo entre ambos, alargando pouco depois o trabalho de colaboração ao palco. Amanhã, os dois músicos passam por Lisboa, para um concerto, pelas 22.00, no Teatro Maria Matos.

"Admiro muito compositores que trabalhem a música de outros compositores. Sobretudo de compositores que já não estão vivos", explica o tenor John Potter em entrevista ao DN, justificando que sempre gostou de cantar música que é, descreve, "como um tributo" à obra de outros compositores. E, historicamente, acrescenta o também professor na universidade de York, "essa era mesmo uma tradição que encontramos no espaço da música antiga. Muita da música de Dufay, no século XV, nasce de tributos" a outros compositores. E, conclui: "O que o Ambrose [Field] fez, de certa maneira, segue essa tradição."

Para John Potter, "muita da música que se cria tem a ver com as capacidades de quem a faz e com o que tem à sua disposição. E o Ambrose tem um laptop... Electrónicas. Modifica os materiais", descreve. Mas se Dufay fosse vivo hoje em dia o cantor acredita que "reconheceria as ideias e os imperativos como compositor" de Ambrose Field.

A presença do tenor no disco (e depois nos concertos) partiu de um convite simples e directo. Ambrose Field pediu-lhe "para cantar algumas peças de Dufay". Conhecedor da obra deste importante nome da música do final da Idade Média, aceitou. E recorda: "Gravei-as num estúdio em Nova Iorque... Nem estava num dia particularmente bom e nem me esforcei por aí além... Até porque, pelo que eu conhecia da música do Ambrose, nem esperava vir a reconhecer a minha voz", exclama e ri. Mas se imaginasse o que acabou por acontecer se calhar ter-se-ia "esforçado mais". Tanto que o próximo álbum, no qual estão a trabalhar neste momento, confessa, "já me esforcei mais, sim"...

O novo disco, adianta o cantor, não será uma continuação directa do que fizeram em 2009 em Being Dufay. Ambrose Field pediu novamente a John Potter para que este lhe "apresentasse algum material de base para trabalhar". O tenor conta que, desta vez, "queria explorar a ideia de compositores que trabalham material de outros compositores". E, confirma: "Tudo o que acabei por lhe dar vem de peças de compositores que se referem a outros." Ambrose Field, confirma ainda John Potter, está já a trabalhar no novo disco. "De vez em quando vai-me mandando coisas para eu ouvir. E o som é completamente diferente. Está à procura de réplicas nas vozes, como se fosse uma reverberação muito distante. Mas para mim é muito interessante porque, uma vez mais, o que fiz foi cantar o material de base que tínhamos à partida. E ele faz depois o resto", explica ao DN.

O interesse entretanto gerado por Being Dufay acabou por levar esta parceria à estrada. Mas o que propõe em cena não é uma réplica do que nos mostra o disco. "A música está hoje muito diferente, porque, na verdade, o que o Ambrose faz é recompor a música ao vivo", descreve o tenor. "O que ouvimos no disco e uma versão possível. Ele tem muito mais coisas no seu laptop. E tem usado esse material. Obviamente reconheço alguns momentos, mas há pontos onde a música acaba diferente. Vai recompondo, vai remisturando", acrescenta. De resto, John Potter reconhece que "para um músico é importante correr riscos e poder surpreender-se a si mesmo". A última coisa que quer fazer é "estar a repetir algo" que já fez antes...

A acompanhar Ambrose Field e a voz de John Potter, o palco do Teatro Maria Matos vai também receber as imagens expressamente criadas por Michael Lynch para cena. As imagens "acrescentam uma camada à interpretação deste material. Poderia ser aborrecido, em concerto, as pessoas estarem ali a olhar apenas para mim e para o Ambrose. Assim, pedimos a Michael Lynch que criasse imagens em resposta a esta música. O que obtemos no fim é esta resposta visual a sentimentos que a música sugeriu", explica.

Este música estabelece pontes entre músicas a mais de 500 anos de distância entre si. E tem na voz de John Potter o veículo de comunicação entre os dois tempos que se juntam num mesmo palco. "Quando canto uma peça, é natural que tenho em conta um certo relacionamento com o Ambrose, mas estou também a sentir uma ligação com Dufay ao mesmo tempo", confessa. E uma vez mais a ideia de viajar no tempo faz sentido falando de música.


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